Minha mãe pediu pra eu ir buscar um litro de querosene na venda do Portuga.
Sábado, tardezinha, quase anoitecendo, ela descobriu que o que tinha nos lampiões não daria para o fim de semana. E a garrafa estava quase vazia.
Subi a ladeira num pinote, mas chegando na venda, o dito estava “a jogaire” uma partida de vinte e um. E a dinheiro, com alguns fregueses.
Pois ele nem me olhou direito. Disse que querosene só amanhã. Diante do argumento que o que tínhamos em casa não aguentaria manter os lampiões acesos nessa noite, ele nem se abalou. Disse que eu fosse ao caralho e pronto. Naquele instante querosene era só amanha mesmo.
Sem alternativa, e sem outra venda por perto, já estava desistindo quando vi encostados perto da porta, alguns litros do precioso combustível. Cheinhos. Certamente eram dos bebuns que estavam a “jogaire” com o Portuga mal educado e sem piedade.
Deixei o litro vazio e peguei um dos cheios. Tomando o cuidado para que o litro fosse da mesma marca de vinho, é claro! Quem iria desconfiar da troca? Poderia ser que o Portuga esqueceu-se de encher todos...
Domingo gastei o dinheiro “ganho” comprando dois cruzeiros de bombinhas.
Época de São João, pobreza era não ter ao menos um traque pra explodir na rua. Pois eu tinha bombinhas, ora, pois.
Segunda á noite meu pai chegou com uma cara de bravo e uma cinta nas mãos. Agarrou-me pelo pescoço e deu-me todas as cintadas que eu fiz por merecer. Não bastasse isso, me agarrou pelo braço e me puxou ladeira acima, até a tal venda do Portuga.
Deu-me o dinheiro que era pra entregar ao tal filho da puta do jogadoire de baralho.
Ele na porta junto com outros fregueses, ficou olhando a cena, que pra mim devem ter durado horas.
Nunca mais entrei naquela venda. A maior vergonha era que o merda tinha uma filha bonitinha que me olhava diferente. Poderia vir a ser uma primeira namorada, quem sabe.
Mas uma coisa eu garanto: aquele foi meu último furto na vida. E meu primeiro arrependimento de não ter seguido o conselho de ir pro caralho.
Anos depois, muitos anos, diga-se de passagem, um amigo apontou uma senhora num mercado e me lembrou de que aquela era a filha do merda. Uma gorda, com fartos bigodes, cabelos amarrados com redinha de nylon. Que sorte a minha. Não fui ao caralho mas também não precisei entrar numa fria de ter quase namorado uma mulher como aquela.
Já imaginaram ?






Observação: CARALHO é a quela cestinha que ficava no alto do mastro dos navios, de onde o marinheiro gritava "Terra à vistaaaaa" .
Em geral eram mandado pra lá alguns marinheiros mais exaltados como castigo. O troço balançava tanto que quando o sujeito descia, estava tão mareado que era capaz de ficar dias sem arranjar novas encrencas.

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