Nutridas e destiladas como a arte pura da criação de parte significativa do território nordestino, as culturas dos sertões, que ocupa quase 80% do estado da Bahia, são derivadas de uma rica história de reinvenções. O sertão está presente na literatura popular de cordel, nas composições do carioca Heitor Villa-Lobos inspiradas pelas modas de viola, nos compassos do xaxado, do forró e dos sambas chulas, nos objetos e nas roupas de couro dos vaqueiros, na mesa farta e variada de uma gastronomia feita a base de carnes curtidas pelo sol onipresente. No entanto, apesar de todos estes elementos que povoam o nosso imaginário, as tradições que compõem o universo cultural dos sertões, de modo geral, não têm sido reconhecidas como aspectos constitutivos da identidade cultural da Bahia – esta, nos últimos tempos, quase unicamente associada à influência das culturas de matrizes africanas.

Com o objetivo de valorizar as culturas dos sertões, difundi-las amplamente e discutir sua importância para a formação da identidade cultural dos baianos, e para a sua diversidade, a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA) promove, de 05 a 9 de maio de 2012, a primeira “Celebração das Culturas dos Sertões”.

A abertura deste grande evento vai acontecer em Salvador, no dia 05 de maio, no Teatro Castro Alves, com um espetáculo musical em homenagem ao centenário de Luiz Gonzaga, “Baião de Nóis” com participação de Elomar, Xangai, Carlos Pita e Targino Gondim, entre outros, e direção artística de João Omar. No dia seguinte, o evento se transfere para Feira de Santana, segunda maior cidade do estado da Bahia, conhecida como o “Portal do Sertão”, para uma semana de diferentes atividades que fazem parte da ampla programação do evento, incluindo a aula espetáculo do mestre pernambucano do movimento armorial, Ariano Suassuna, solenidade da inscrição no livro especial dos Saberes e Fazeres do Oficio de Vaqueiro como patrimônio cultural de natureza imaterial do Estado da Bahia, lançamento do longa de animação “Ritos de Passagem”, de Chico Liberato, desfile de vaqueiros, além de um encontro de estudos, mesas redondas, debates, exposição fotográfica, noite de autógrafos de livros e CDs, feira de artesanato, oficinas e apresentações musicais realizadas através de parcerias com diversos colaboradores que participaram juntos da concepção e organização do evento, ao lado da equipe da SecultBA.

Para o secretário de Cultura do Estado da Bahia, Albino Rubim, a intenção é realizar este evento literalmente em um clima de celebração. “Queremos dar visibilidade para as culturas dos sertões e abrir espaço para a discussão e debates, para que não tenhamos uma visão destas culturas apenas no sentido de sua tradição, mas também dos seus aspectos contemporâneos, muitas vezes pouco conhecidos ou valorizados”, disse o secretário.

Para a Secretaria, colocar as culturas dos sertões no foco das atenções é um passo importante para o entendimento de diversidade cultural da Bahia. Além disso, é também uma ação importante no processo de aprofundamento da territorialização da cultura e de ampliação do diálogo intercultural, possibilitando um novo olhar acerca das artes, dos saberes, das práticas, tradições, inovações e dos personagens que compõem o universo do sertão.

Para o antropólogo Washington Queiroz, há anos pesquisador sobre a cultura desta região, “a Bahia, em especial Salvador, nunca reconheceu da forma que deveria essa produção e toda a riqueza das culturas sertanejas”, afirma. Para ele, que é um dos principais colaboradores do evento e curador da exposição fotográfica “Imagens dos Vaqueiros da Bahia”, integrante da programação, esta Celebração deve ocorrer com forte apelo, tornando-se parte do calendário oficial da cultura da Bahia e do Brasil.

0 comentários :

Postar um comentário

 
Top